sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Divã.

"Se ser feliz para sempre é aceitar com resignação católica o pão nosso de cada dia e sentir-se imune a todas as tentações, então é deste paraíso que quero fugir.

Tenho medo de não conseguir manter minhas idéias, meus pontos de vista, minhas escolhas (...) Eu tenho medo é da lucidez. Tenho medo dessa busca desenfreada pela verdade, pelas respostas. Eu me esgoto tentando morder meu próprio rabo (...) Ok, eu sei que jamais vou derramar um copo de cerveja na cabeça de um homem, nem vou sair nua pelos parques protestando contra o uso de casacos de pele. Eu nunca vou fazer uma extravagância, e é isso que me assusta, por que uma piração de vez em quando pode ser muito bem vinda. Eu não tenho medo de perder o senso. Eu tenho medo é desta eterna vigilância interior, tenho medo do que me impede de falhar.
Sempre desprezei as coisas mornas, as coisas que não provocam ódio nem paixão, as coisas definidas como mais ou menos. Um filme mais ou menos, um livro mais ou menos. Tudo perda de tempo. Viver tem que ser perturbador, é preciso que nossos anjos e demônios sejam despertados, e com eles sua raiva, seu orgulho, se acaso, sua adoração ou seu desprezo. O que não faz você mover um músculo, o que não faz você estremecer, suar, desatinar, não merece fazer parte da sua biografia. (...) As coisas muito boas e as coisas muito ruins exigem explicação. Coisas mais ou menos estão explicadas por si mesmas.
Perigoso é a gente se aprisionar no que nos ensinaram como certo e nunca mais se libertar, correndo o risco de não saber mais viver sem um manual de instrução.
Eu estou apaixonada, mas não é por uma pessoa. Estou apaixonada pela lembrança de algo leve, solto e rápido, como uma bola de gás que escapa da nossa mão e passa a ficar cada vez menor e mais distante. Estou apaixonada pelo impacto da vida, por um tiro certeiro e bem mirada, pelo arrebatamento provocado pelo descuido das minhas defesas. (...)
Não gosto de nada que é raso, de água pela canela. Ou mergulho até encontrar o reino submerso de Atlântida, ou fico à margem, espiando de fora. Não consigo gostar mais ou menos das pessoas, e não quero essa condescendência comigo também.
Sexo deveria se como uma chuveirada. Uma gargalhada.
Não gosto da vida em banho-maria, gosto de fogo, pimenta, alho, ervas, por um triz não sou uma bruxa. (...)
Não gosto que me peçam para ser boa, não me peçam nada, mesmo aquilo que eu posso dar. As relações de dependência me assustam. Não precisem de mim com hora marcada e por motivo concreto, precisem de mim a todo instante, a qualquer hora, sei ouvir o chamado silencioso da amizade verdadeira, do amor que não cobra, estarei lá sem que me vejam, sem que me percebam, sem que me avaliem.
Eu me exijo desumanamente.... Sou garimpeira, quero sempre cavoucar a razão de tudo."




(Martha Medeiros)

Mágica!


"Não ceda nunca à dor ou à tristeza o lugar que ocupa a alegria."



(Raumsol)

Dualidade.


Acordei hoje com tal nostalgia de ser feliz. Eu nunca fui livre na minha vida inteira. Por dentro eu sempre me persegui. Eu me tornei intolerável para mim mesma. Vivo numa dualidade dilacerante. Eu tenho uma aparente liberdade, mas estou presa dentro de mim.



(Clarice Lispector)

Um pé de não sei o quê.


Plantei um pé de flor na manhã que não terminou. Manhãs que foram paridas com cheiro de madeira verde e fresca nos ouvidos e um solo de baixo no ventre da noite nunca terminam.

Mesmo que você feche os olhos num sono fingido elas fazem cócegas em seus pensamentos como o riso frouxo de uma criança que desconhece todo e qualquer perigo.

Manhãs que nunca terminam são, por certo, o melhor abrigo para quem deseja descansar do mundo.

São elas, também, crianças. Curumins que te fazem lembrar certas brancuras que por descuido e necessidade vã de borrar a vida acabamos esquecendo.

Para quê tanta tinta quando tudo o que se quer é o aconchego de um velho e branco sorriso?

Borramos nossos lençóis com lágrimas de amor perdido. Borramos nossas roupas na sarjeta das impossibilidades. Borramos nossas unhas tentando tocar o que não está ao nosso alcance. Borramos as canções, quando insistimos em certas trilhas.

Borramos o leite com café, a folha com a palavra, o arroz com o feijão, como se as cores pudessem nos livrar de certas ausências.

Plantei um pé de flor na manhã que não terminou não por querência ou anseio de eternizá-la, mas porque qualquer palavra ante sua beleza poderia parecer descuidada.

Um pé de não sei quê. Um pé de não sei quê que não garante fruto doce, nem azedo. Que não garante sequer a segurança do fruto no momento da fome. Mas um pé de não sei quê que te faz regressar para o melhor de todos os perfumes: você.




(Mônica Montone)

Leviano.


De uma ânsia sufocante, o som de sua palavra áspera, ácida retira dos meus pés, o chão. Disputa de argumentos, um silêncio irritante, uma vontade danada de matar minha sede em sua boca. É sempre isso e mais um pouco para que desfaça-se a paz entre nós. Não preciso, não quero, não vou brigar com você por sua própria causa. Faça o que quiser, a vida é sua e não me cabe opinar. Só quero que não esqueça que, apesar de amar muito você, eu consigo ponderar e decidir se ainda está valendo a pena. Não estrague tudo por leviandade. Já conhecemos os efeitos de um ato assim. Seja claro! Eu dispenso as entrelinhas.



(Paulinha do Ocaso do Acaso)

quinta-feira, 5 de novembro de 2009


 
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